segunda-feira, 6 de setembro de 2010

EIS O PASSARINHO


Eu e Luciano decidimos apresentar Miguel.
Mostro agora a razão desse blog.

Miguel Jardim Marinov
*1,590 kg
*39 cm
*78 dias de vida e de UTI.


É por esse tubo na boca que ele respira. Mas por favor não sintam pena. Miguel não precisa disso. Como vocês sabem, ele já encarou 40 transfusões de sangue, infecção bacteriana e por fungo, meningite, hipertensão pulmonar e etc...

Não pensem: “ahhhhh, coitadinho....”

Porque tudo isso que ele passou (e ainda passa), nenhum de nós agüentaria.

Miguel é meu orgulho. Tanta bravura e vontade de viver em apenas 39 cm e 1.590kg.

Miguel é meu anjo. Tão pequeno e tão iluminado.

Miguel é meu desafio. Nunca fui jeitosa com crianças.

Miguel é meu tudo. Mato e morro por ele.

Miguel é meu passarinho. Um passarinho que mata leões. E isso basta.



sexta-feira, 20 de agosto de 2010

EU, LUCIANO, MIGUEL E DEUS

Dicionário Aurélio:

Desespero: desesperação, aflição extrema.
Medo: sentimento de viva inquietação ante a ameaça de perigo real ou imaginário de ameaça, pavor, temor.

Foi isso que eu senti quando o Dr. Joaquim, pediatra, deu seu parecer a Luciano numa terrível sexta-feira: “_ Seu filho tem chance, mas corre risco de vida”.
Nessa hora, meu cérebro virou mingau. Minhas pernas perderam as forças e eu fiquei oca. Não conseguia enxergar nada. Parecia tudo embaçado. Depois percebi que eram lágrimas que enchiam meus olhos e sujavam meus óculos.
Só me restou o instinto de respirar. Não pensava. Não falava. Não me movia. O torpor tomou conta de mim.
Por que isso? Miguel está com Hipertensão Pulmonar. Seu pulmãozinho já ferido pelo oxigênio travou. A pressão dentro dele era maior que a do ar que vem de fora para respirar.
Foi um pandemônio e muitas drogas foram adicionadas ao seu já recheado prontuário. E em pouco tempo dois “postes” com bombas de remédio se erguiam ao lado do seu leito. Foram nove ao todo. Fora os medicamentos de horário que não entram no poste. Até viagra que é um vaso dilatador, ele tomou, na dosagem correta, é claro.
Foi necessário um acesso central ou Flebo como é chamado. Esse troço é como um cano enfiado numa veia dissecada dele. Foram feitos dois, porque um não deu certo.
O ventilador que leva oxigênio pelo tubo, estava agora em “alta freqüência”, ou seja, o aparelho faz com o pulmão fique aberto e respirando, mas o paciente fica tremendo 100% do tempo. Tem noção? E como ainda era pouco, essa alta freqüência fez o pulmão de Miguel “romper”, vazando ar para o tórax. Para esse problema foi introduzido um dreno ou sonda nas costelas dele para que o fluído saia.
Esse foi até hoje o maior leão que Miguel enfrentou e ainda enfrenta.

Nós e Deus

Quando vi tudo isso só me veio uma coisa em mente: “”Caraca” (mentira, pensei um palavrão parecido com isso) – agora “ferrou” (outra mentira) – a “porcaria” (mentira de novo) toda”.
Por um momento achei que fosse enlouquecer.
Quando se tem um bebê há quase 60 dias numa UTI, a impressão é que o oceano está na sua frente e você tem que nadar a pequenas braçadas todo ele, até que chegue em terra firme. Essa terra tão distante, esse lugar se chama “Alta”.
E meu mar que nunca foi de calmaria, foi acometido por um maremoto digno de Poseidon. Estávamos eu, Luciano e Miguel no meio dele.
No sábado a Dra. Paola – pediatra, depois de explicar a gravidade da situação, foi sincera, como sempre: “Ele tem 48 horas para responder, já fizemos tudo que podíamos. Conversem com Miguel e diga para ele seguir seu caminho”.
E foi o que eu fiz. Achei que era o certo a fazer.
Com o sofrimento meu e dele bloqueando meus sentidos, conversei com Miguel. E foram as palavras mais dolorosas que disse em minha vida:
“Miguel. Eu sei o que está acontecendo. E eu te amo tanto, mas tanto, que não quero te ver sofrendo. Se você for para o colo de Papai do Céu, eu e seu pai vamos ficar tristes sim. Mas vamos te entender. Se você for um anjo que veio para minha vida e tiver que voltar para o seu lugar, pode ir. Você será sempre meu passarinho. Eu te amo”.
Saí da UTI e chorei. Chorei como nunca havia chorado em minha vida.
É uma dor sem nome. Que ainda dói sempre que ele piora.

No meio do maremoto que enfrentávamos (e ainda enfrentamos), só tinha uma bóia para todos nós, e estava gravado com letras grandes: Fé em Deus.
E foi nela que nos agarramos. Já não tínhamos mais lágrimas. Apenas fé. Abalada, mas ainda estava lá.
O fim se semana passou e se esgotaram as 48 horas. Isso já faz mais ou menos 12 dias.
Miguel continuou e continua lutando. Graças a Deus.
O pulmão ainda não melhorou muito, mas as drogas diminuíram.
Nós deixamos ele ir, mas ele não quis.
Esse leão que ele enfrenta é cruel, é forte e difícil, mas Miguel é muito valente. E o mais importante: meu passarinho quer viver.

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

OS ANJOS DE MIGUEL

Dessa vez não vou fazer propriamente um texto. Resolvi homenagear e de certa forma apresentar a vocês algumas das pessoas que cuidam das crianças na UTI Neo Natal, e que estão mais próximas a Miguel.
O que fiz foi perguntar a elas o que é cuidar dessas crianças que não são seus filhos – mas também são. Eis aqui seus depoimentos:

• O que é para você cuidar desses bebês?

 “Eu gosto eu mesma de “furar” por que eu sei – modéstia a parte – que será bem feito”. (Ana Maria – mãe Lais, Mayra e Juliana - Téc. De Enfermagem do laboratório que colhe os exames de sangue da criançada)

”Aqui é uma extensão da minha casa. São crianças especiais” (Mônica, enfermeira, mãe do Pedro )

 “É meu segundo papel nessa vida (depois de ser mãe)”. (Dra. Gabriela, mãe do Guilherme e da Beatriz – médica responsável pelo “Eco”)

 “Como uma responsabilidade muito grande. Por que essas crianças são o verdadeiro sonho dos pais, que esperaram muito tempo e na maioria das vezes não terão oportunidade de ter outros filhos. Por isso, tento sempre fazer o melhor possível para o bem estar dos bebês e dos pais. E eu amo demais, não presto para outra coisa.” (Magny, Téc. de Enfermagem, não é mãe – ainda).

 “São a luz do meu trabalho. É demais trabalhar para eles. Eu trabalho mais para eles do que para mim.” (Etiene, fisioterapeuta, não é mãe, mas cuida da respiração do Miguel).

 “Tenho muito carinho por eles. Acho que nosso sentido maior é poder fazer com que eles possam ir embora nas melhores condições possíveis.” (Luciana, enfermeira, não é mãe)

 “É uma coisa que eu gosto muito. Que me faz bem. É uma satisfação. É importante para eles serem bem cuidados.” (Fabiana, Tec. De Enfermagem, não é mãe, mas cuida do Miguel todas as tardes.)

”Eu amo o que eu faço. E não sei fazer outra coisa que não seja isso. Se me tirar daqui, perco a referência.” (Sabrina, Téc. de enfermagem, mãe da Kaylane e do Icaro)

 “Eu tenho uma dádiva de ter escolhido uma profissão onde o que eu penso e o que eu faço pode alterar o destino dos pacientes. E quando a gente consegue superar os desafios é muito gratificante.” ( Dra. Miriam, pediatra, mãe da Carolina – pegou e cuidou do Miguel na hora da cesariana e cuida ainda hoje).

 “È uma satisfação enorme. Diariamente uma batalha pela vida. Eu amo o que eu faço. Não faria outra coisa na vida”. (Dra. Andréa, pediatra – não é mãe).

 “É gratificante. Principalmente esses pequenininhos igual ao Miguel. E o que me mais toca ainda é a dedicação dos pais, o empenho.” ( Dr. Joaquim, pediatra – pai do Francisco, da Maria Clara e avô da Beatriz).

 “É uma outra responsabilidade. A gente se apega demais. A gente fica feliz com cada vitória e chateado quando eles regridem um pouquinho.” (Simone, Téc. De enfermagem).

 “É tudo. Uma baita realização. Muita responsabilidade, mas muito prazer e muito retorno. Há algumas perdas e uma renovação. Todos os dias eu me renovo. É como ser mãe deles, de uma maneira figurativa. Mas sou mãe deles.” (Dra. Paola, pediatra, mãe do Piero e do Matheus – acha Miguel um pentelho por ter tantas complicações).

“ Para mim é tudo cuidar deles. Não tem outra coisa que não seja isso. Eu me orgulho muito de mim por saber cuidar deles. É um dom divino, que Deus escolhe a dedo quem vai cuidar deles. E eu fui escolhida.” ( Renata - Téc. De enfermagem, mãe da Julia – cuida – muito bem - do Miguel todos os dias).

quarta-feira, 28 de julho de 2010

Miguel fez 1 mês!!!!

30 dias: 29 transfusões(entre sangue, plaquetas e etc..). 1 infecção bacteriana. 1 cirurgia cardíaca. 1 infecção por fungo, meningite e instabilidade pulmonar.
Querem mais? Eu não. Nem Miguel.
No último dia 20, meu filho completou um mês de vida. E já carrega todo esse peso na bagagem de sua pequena vida.
Nem tudo está curado. Mas ele resiste. É um passarinho forte. E suas batalhas estão só começando.
De qualquer forma vou tentar resumir esses 30 longos dias sem mencionar as moléstias.

A rotina

Hospital. Elevador. Primeiro andar. Lado direito. – ao lado esquerdo fica o berçário dos bebês que nascem de 9 meses e sem problemas. Vou para o lado direito. Sou recebida pelo cheiro peculiar da UTI Neo Natal. Portas de vidro fechadas. Toco o interfone: “ Pois não?”. Eu respondo: “È Carolina, a mãe do Miguel”. Me deixam entrar. Visto o avental e lavo as mãos. Cumprimento as enfermeiras e entro na sala 4.
Lá está Miguel, meu passarinho dentro da sua caixa transparente. Lavo as mãos novamente e uso álcool gel. Digo “Olá” (bato um papo com as enfermeiras e fisioterapeutas de plantão) e vou velar minha cria.
Admiro, converso, canto, rezo, faço carinho em sua cabeça com a ponta dos meus dedos. E é só o que posso fazer até o momento.
Vou para coleta de leite que as mães carinhosamente chamam de “vaca”. Volto para UTI com os mesmos movimentos e continuo a velar meu filho. Depois de algum tempo, faço uma última oração e me despeço.
Vou para casa. Mas, meu coração fica. Desde o dia 20 de junho que meu coração não mora mais no meu peito. Ele fica junto com o pedaço de mim que chamo de Miguel.
No início era mais difícil. Chorava toda vez que via mães levando seus filhos recém nascidos e embrulhados como presentes para casa. Hoje não choro mais. Estou resignada e aceito o que me foi dado por Deus.
Meu bebê está lá, dentro da caixa. É o meu presente. O meu passarinho.
Qualquer dia ele sai da caixa transparente e vem para sua casa. Esse sim, seu verdadeiro ninho.

segunda-feira, 12 de julho de 2010

O que eu fiz? Um passarinho que mata leões.

O que eu fiz de errado? Por que eu?
Essas perguntas gritavam dentro de mim, mesmo os médicos insistindo que o problema era fisiológico, que eu não tinha culpa.
Ver Miguel tão pequeno e frágil na caixinha de UTI além de tudo o que já representa, é também uma frustração. Não me entendam mal, não é futilidade, é sentimento mesmo. Assim como a culpa, a frustração é algo implacável. E comigo não é diferente. Sempre me sentirei culpada e frustrada.
Queria muito ter levado a gravidez normalmente, me deleitar com o barrigão e sentir seus chutes cutucando minha barriga esticada. Não deu.
Talvez por isso, eu sinta dores profundas na alma quando me esqueço por um momento e chamo por ele dentro de mim. Como se ainda estivesse lá...
O sofrimento é ainda maior ao olhar para Miguel dentro da caixa transparente. E o meu ventre vazio. O lugar onde ele deveria estar, sem tubos e agulhas enfiadas na pele.
Não tem jeito.
Hoje as perguntas que antes falavam tão alto na minha cabeça estão mais silenciosas. Vivendo no hospital estou aprendendo que algumas coisas não escolhem beleza, poder aquisitivo, cor, benevolência ou simpatia...
Elas acontecem e pronto. Independente das minhas dúvidas e questionamentos.
E não há como voltar atrás. Só tentar seguir em frente. Nem sempre a cabeça estará erguida, afinal, as más notícias são como grandes pedras atiradas na sua testa. Dói e você chora. Mas passa. Por que os dias continuam e os leões estão lá para serem mortos.
E quem vai matá-los? Um passarinho, é claro. A luta é desleal. Mas ele briga assim mesmo.
E um dia como nas fábulas, todos saberão de seus feitos: Miguel, o passarinho que matava leões.

domingo, 4 de julho de 2010

FOI ASSIM...

Explico aqui por que Miguel é prematuro.
Tudo ia muito bem até chegarmos do quinto para o sexto mês (não me lembro as semanas). Fizemos uma Ultra-sonografia Obstétrica. Na hora do exame a médica mandou a seguinte frase: “ É... parece que há uma resistência nas suas artérias uterinas.”
Na hora tocou o alarme (eu estava adivinhando) e ela muito fofa ao meu desespero falou: “Não é nada, não. È só uma resistência, mas é normal na sua idade gestacional.”
Ela era fofa demais. E eu costumo ter medo de gente fofa. Nunca passam a realidade da situação. Mas acabei me deixando levar e esperei a consulta Pré Natal tranqüilamente. Afinal, ela foi tão fofa...
E eu fui trouxa. E não deu outra, a pessoa fofa escreveu no laudo, que diferente do que ela me disse fofamente, o bicho tava pegando para o meu lado.

A tal da DHEG

Não serei fofa. Serei prática e objetiva.
Doença Hipertensiva Específica da Gravidez (DHEG). Foi isso que eu tive. Esse troço aumenta a pressão arterial e causa uma alteração placentária, com retardo de crescimento uterino. Não há uma causa para a doença e o único tratamento é o controle durante a gestação.
No meu caso, ela aconteceu muito cedo, obrigando a obstetra a me acompanhar semanalmente com visitas e ultra-sonografias a partir do 6º mês. Quando chegamos a 28ª semana de gestação, Miguel chegou também ao seu limite. E durante um último exame já no hospital, aconteceu o que os médicos chamam de Centralização. Explico. O bebê começou a entrar em sofrimento e se esperássemos mais um pouco, as conseqüências seriam muito mais graves. Foi a decisão correta.
Agora Miguel precisa crescer e se desenvolver fora da barriga o que não foi possível dentro.

Por Carolina Jardim